A arte de voltar para casa
O
céu estava cinza naquele fim de tarde tijucano, acabara de sair do estágio e
pensava na viagem de volta. É sempre comum temer a volta para casa no trem.
Como não podia deixar de ser, os trens estavam atrasados e a estação
incrivelmente cheia. Era pouca plataforma para tanta gente. O temor se elevava
por causa da chuva que ameaçava todos nas surpresas do clima carioca. Tudo isto
anunciava uma viagem de volta conturbada, já havia me esquecido de um
Gracialiano Ramos que descansava na mochila a leitura da viagem de ida e até
daqueles fragmentos de textos da faculdade que ansiavam pela minha leitura.
Tudo era, naquele momento, a viagem de volta. Tomado por esta apreensão e por
algum cansaço de fim de dia, tomei o rumo da estação São Cristóvão.
Agonizando
uma espera pelo trem, seguia com aquele pensamento único. Algumas dezenas de
minutos separaram meu ingresso na estação e a tomada do trem. Quando o Bel (como
é conhecido o ramal Belford Roxo) apontou no horizonte foi aquele desespero, e
quando pensava que não podia piorar eis que surge um trem com apenas quatro
vagões, algo irreal para o fim de tarde. Pessoas se mobilizavam de todas as
partes, outras, frustradas por saber que não conseguiria tomar aquele trem e
esperaria ainda mais, sentavam e aguardavam na dor de não ter seu regresso
naquele momento. A selvageria era algo garantido, eram mulheres atirando seus
filhos pelas janelas para garantirem um espaço no trem, homens se esbofeteando
para tentar entrar; pessoas que são “normais” em qualquer momento do dia, mas
que, na tentativa de abreviar o retorno às suas casas, lutavam arduamente por
um espaço naquela composição.
Com
algum esforço consegui um lugar, entre a protuberância da barriga de uma mulher
de 40 e uma mochila assustadoramente suja. À minha esquerda, possivelmente um
funcionário da construção civil com péssimos hábitos de higiene, e, à direita,
um sujeito que, aparentemente, tinha problemas auditivos, pois sua conversa
poderia ser ouvida de um canto a outro do vagão. Cabe ressaltar que, enquanto
meu tronco se localizava numa região, minhas pernas estavam em outro paralelo.
O movimento de qualquer membro do corpo era de uma utopia desejável e o equilíbrio
era facilmente alcançado nos corpos vizinhos. Só pensava em que tipo de pecado
purgava eu naquele ambiente indesejável.
Viagem
seguia e pessoas tentavam entrar, cada milímetro disputado no tapa, quando não
com armas brancas. Não é preciso dizer que as portas do trem estavam todas
abertas, e aquele espaço era curiosamente disputado, tanto ou mais que os
bancos. Para os mais jovens, um lugar na porta é equivalente a um lugar ao sol,
ou algo próximo.
A
chuva não veio, mas a noite que se iniciava dentro daquele trem era tão abafada
como o fim de tarde que havia deixado na Tijuca. No interior daqueles vagões a
sensação térmica se aproximava do Faherenheit 451, a água evaporava antes de
chegar à boca. E quando se pensava que nada poderia piorar aquela situação, eis
que um cabra saca um aparelho musical de grande potência sonora que emitia um “batidão”
que batia na sintonia da minha dor de cabeça. Mas havia ainda mais, o sujeito
era vendedor e queria, em meio à falta de espaço, apresentar seu produto; obviamente
ele foi sumariamente “deixado” para trás na estação seguinte.
Minha
querida Belford Roxo se aproximava e só me passava na cabeça se todas aquelas
pessoas iriam para lá. Não me parecia um lugar tão densamente povoado como
quando a tinha deixado mais cedo. E a cidade aponta no horizonte a proximidade
de casa, além da poluição típica deste cantão. O trem para na estação e expele a
prole que mais uma vez retorna. Pessoas correndo para todo lado. Percebo, com
alguma felicidade, a familiaridade de todo este caos. Mais uma vez sobrevivi ao
trem, sobrevivência que exige arte. A arte de andar nos trens do Rio.
Gente, Renan, que texto tristemente lindo!!! Eu sei bem o que é isso: andar de trem é uma arte, como vc bem disse!
ResponderExcluir